Jogos cooperativos: a aplicação dos princípios cooperativistas no empoderamento de equipes

 

Jogos cooperativos: a aplicação dos princípios cooperativistas no empoderamento de equipes

Metodologia chegou ao Brasil no final do século 20 e tem um atleta como seu principal estimulador

 

Investir na educação, formação e informação dos cooperados, familiares e sociedade está entre os objetivos e responsabilidades do cooperativismo. Para desenvolver este quinto princípio, há uma busca continua por adequação de metodologias utilizadas em treinamentos e capacitações de empresas às especificidades da doutrina e da empresa cooperativa.

Entre as metodologias que vêm conquistando espaço, está a de Jogos Cooperativos, que, apesar do nome, no Brasil foi aplicada primeiramente na iniciativa privada há cerca de 20 anos, em uma época em que a competição estava completamente integrada ao cotidiano, como única forma capaz de equacionar problemas e atingir as metas. A inspiração veio dos Estados Unidos da América, pós-guerra do Vietnã, na década de 50, resultante de movimento de educação para a Paz, com os new games.

 

Identidade

Unindo esse conceito à experiência como técnico em um time de basquete, o atleta Fábio Otuzi Brotto, com amigos e educadores, em 1992, desenvolveu o Projeto Cooperação – Comunidade de Serviço, em Santos (SP) e que hoje tem braços em Florianópolis (SC), e que chega a todo o país através da atuação direta da ONG e via parcerias com instituições como Associação Palas Athena (São Paulo), a Universidade Holística Internacional (Brasília) e a Unesco (Brasília). A aproximação com o cooperativismo foi natural pelos próprios conceitos envolvidos. Entre as primeiras organizações cooperativas a adotar a metodologia estão Sescoop/SC e o Sicoob Centro, de Rondônia.

Entre os treinamentos desenvolvidos por Brotto ­­– que é mestre em ciências do esporte e bacharel em psicologia – destacam-se Futepar e Xadrez Cooperativo (vide box). Ressalta que o objetivo é atuar em três vertentes básicas: desenvolvimento da pessoa e das equipes; na Educação Física como abordagem para promover os valores humanos e o desenvolvimento integral das escolas; no campo social junto a ONGs para o fortalecimento e o empoderamento comunitário, buscando a excelente produtividade e alto índice de felicidade preconizado pelo FIB (Felicidade Interna Bruta). A evolução levou à estruturação de cursos de pós-graduação em Jogos Cooperativos e Cultura da Paz e em Pedagogia da Cooperação.

 

Cooperação e qualidade de vida

Brotto resume o conceito dessa abordagem como o reconhecimento da importância do desenvolvimento das habilidades de cooperação em contraposição à competitividade e individualismo. A sustentabilidade e a responsabilidade social levam ao desenvolvimento de habilidades cooperativas como alternativa para entregar ao mercado um serviço mais eficiente, e se contrapõe, no mundo cooperativo, ao conceito de competitividade, responsável, inclusive, por diversas quadros de adoecidade por stress ocupacional, que levou as empresas a pesquisas sobre qualidade de vida dentro das organizações.

“O conceito de jogos cooperativos se fortaleceu também pela evolução tecnológica e a popularização das redes de comunicação, que exigem gestão do conhecimento de forma colaborativa”, comenta Brotto, afirmando que também se inspirou na intercooperação – que se constitui o sétimo princípio da doutrina cooperativista – no âmbito corporativo, “reunindo empresas, antes concorrentes, no compartilhamento de conhecimento e na criação de soluções em conjunto”. Esse olhar, aliás, é uma ampliação de prática usual no mundo científico e que já valeu alguns Prêmio Nobel para equipes transnacionais

Os resultados mensurados pelo consultor passam pela conquista de vitórias reais em campos complexos e sensíveis, usualmente discutidos no Brasil, como “justiça social, educação cidadã e qualidade de vida para todos. Reduz, também, o absenteísmo assim como dos índices de afastamento do trabalho por stress pessoal e organizacional, restaurando a saúde coletiva, reduzindo custos, proporcionando economia financeira e de recursos voltados à produtividade e ao bem-estar coletivo à organização”, resume.

Riscos existem, e dificuldades também. Resumindo esses aspectos, o consultor lembra que “um jogo cooperativo não garante que haverá cooperação. Apenas oferece melhores condições para que ela aconteça. Assim, é recomendável preparar adequadamente cada seção de jogos cooperativos, propondo desafios compatíveis com cada pessoa e grupo. Além disso, o empoderamento de pessoas e grupos torna impossível a manipulação, amplia a transparência, tornando impraticável o controle, o patrulhamento”.

O costume da competitividade, instituído ao longo da História da humanidade, é um gargalo na implementação de uma vida cooperativa. “As pessoas, mesmo que queiram ser cooperativas e colaborativas, nem sempre sabem como fazer, e precisam ter predisposição para refletir sobre os relacionamentos e buscar soluções que beneficiam todos, desenvolvendo a cultura colaborativa”, recomenda.

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De SC a RO, cooperativismo aprova metodologia

 

Conquistado pela metodologia há mais de dez anos, o Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo de Santa Catarina (Sescoop/SC) oferece, anualmente, oficinas de jogos cooperativos para os educadores participantes do programa CooperJovem, que tem entre seus objetivos a promoção da cultura da cooperação nas escolas, baseada nos princípios e valores do cooperativismo, por meio de atividades educativas. Neste sentido, “a metodologia dos jogos cooperativos vem a agregar de forma lúdica e vivencial, as ações que estão sendo desenvolvidas nos projetos educacionais cooperativos do programa, incentivando a prática da cooperação ao invés da competição, estimulando o jogar ‘uns com os outros’ e não o ‘uns contra os outros’ e, principalmente, proporcionando a experiência de vencer desafios coletivos, que só podem ser superados juntos”, resume Patrícia Gonçalves de Souza, coordenadora de Promoção Social do Sescoop/SC.

“Estas oficinas estão inseridas dentro da proposta formativa do programa, como uma metodologia complementar às práticas educacionais que são preconizadas no programa”, resume a coordenadora de Promoção Social, lembrando que o Sescoop/SC já desenvolveu dois projetos “grandiosos, que tiveram como base fundamental os jogos cooperativos: Gincana Cooperativa em 2012 e Coopa de Futebol Cooperativo em 2014. E, durante a Rio 2016, realizou os Jogos Coolímpicos 2016, que, com a participação de 55 escolas públicas e parceria de 21 cooperativas, atingiu mais de 20 mil pessoas em todo o Estado”.

Os resultados obtidos pelo Sescoop/SC são ainda mais expressivos. De acordo com Patrícia Souza, ao todo, as oficinas para professores e os projetos com jogos cooperativos já beneficiaram mais de 40 mil pessoas. Além disso, “ a implantação dos jogos cooperativos como uma metodologia colaborativa complementar à do CooperJovem vem contribuindo de forma muito significativa para a promoção da cultura da cooperação no cotidiano das escolas, através de práticas cooperativas que são incentivadas a serem desenvolvidas ao longo de todo o programa”, destaca a coordenadora da instituição.

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Rondônia

Em 2015, a realização de jogos cooperativos marca a entrada da metodologia no Estado de Rondônia, através do Sicoob Centro. Batizado de I Pincoop (Programa de Integração dos Colaboradores do Sicoob Centro), o projeto surgiu “do desejo de integrar todos os colaboradores oriundos das três cooperativas (Crediron, Emprecred e Jarucredi) que se uniram em março de 2014 e que estavam distribuídos em oito cidades do Estado, distando ente elas em mais de 200 km da sede, situada em Ji-Paraná”, relata Paulo Tadeu Siqueira Júnior, gerente de Recursos Humanos da cooperativa, frisando que o evento destinou-se, exclusivamente, ao quadro funcional da cooperativa em todas as camadas, incluindo conselheiros administrativos, fiscais e diretores.

A esse motivo inicial, o gerente de RH do Sicoob Centro agrega a necessidade de, durante todo o ano, os Pontos de Atendimento buscarem atingir e bater metas, correspondendo às expectativas da Direção e dos cooperados. “Desse modo, além da construção de uma equipe mais unida e focada, buscou-se também criar um sentimento de grupo, favorecendo a união e tornando mais fácil o atingimento dos objetivos. Conseguimos, também, uma equipe mais empenhada no desenvolvimento da empresa; maior proximidade entre colaboradores, mesmo distante geograficamente; maior proximidade entre colaboradores, conselheiros e Diretoria; maior efetividade no trabalho em equipe; e senso de união”, comenta.

 

Tipos de jogos cooperativos

Existem muitos tipos de jogos cooperativos: semicooperativos, de inversão, de resultado coletivo, de tabuleiro, de transformação e jogos cooperativos propriamente ditos. Brotto ressalta a importância de saber sobre essas e outras modalidades quando desejamos oferecer jogos cooperativos para algum grupo, numa determinada situação, pois muito do sucesso ou fracasso de um programa está na adequação dos jogos a serem utilizados.

O Futepar é um jogo semicooperativo, praticado como um jogo de futebol normal, mas jogado em duplas e com as mãos dadas. É bastante desafiador e divertido, incentivando os jogadores a ajustar os ritmos individuais num jeito de jogar comum.

Já a Dança das Cadeiras Cooperativas é um jogo cooperativo propriamente dito. Baseado na brincadeira tradicional da dança das cadeiras, esse jogo convida os participantes a terminá-lo com todos sentados numa única cadeira.

Há, também, jogos cooperativos de tabuleiro (Jogo da Terra e o Jogo Lugar Bonito, assim como o Xadrez cooperativo). É possível também utilizar jogos não propriamente cooperativos, como Banco Imobiliário, Imagem e Ação, xadrez, rouba monte, videogame (os de luta não) e tentar descobrir em conjunto como jogar cooperativamente os jogos competitivos. Com isso, “aprende-se a lidar com a competição a partir de uma consciência cooperativa do que evitá-la ou ignorá-la”, comenta Brotto, sugerindo, inclusive, a prática em família, como lazer.

 

 

 

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