Liderança: a arte da influência

Liderança: do presente

Definições, reflexões, características, estudos de caso, biografias, teorias, trabalhos acadêmicos – e aqueles nem tanto – sobre liderança e formação de líderes rendem muitas vendas a editoras e livrarias, assim como palestras, seminários, consultorias de experts no tema. Teorias se sucedem, às vezes se contrapõem. Mas hoje, um ponto é comum: o líder é construído no dia a dia e, mesmo quando ele chegou onde queria, tudo recomeça, pois ele precisa se manter no topo para obter o título de sênior.

Há carência de líderes. Essa é uma verdade aceita por praticamente todas as pessoas. Mas será que essa afirmação é absoluta ou merece uma complementação, que está na resposta à seguinte pergunta: carência de que tipo de líderes? Se a resposta for “daqueles que nascem prontos, os carismáticos”, tudo bem, liderança é artigo em extinção, principalmente no que diz respeito a líderes que, pelo simples fato de existirem, estimulam as pessoas a sua volta a serem melhores e a construir um mundo melhor e mais justo.

 

Agora, se a resposta for líderes “no atacado”, aqueles de abrangência setorial, local, regionalizada – que conduzem pessoas em organizações com o fim de alcançar, com êxito, os resultados planejados – muito vem sendo construído e – pelo menos no Brasil – eles estão ajudando a economia a caminhar, apesar dos percalços políticos. E nesse grupo encontram-se líderes de vários tipos e denominações: exigente, liberal, autocrático, visionários, técnico, motivador, assertivo, servidor, participativo, situacional, etc.

O importante, independentemente da denominação e dos conceitos desenvolvidos por teóricos, especialistas, gurus e “papas” no tema, é que hoje liderança não é um dom natural, mas uma competência que pode ser desenvolvida e aperfeiçoada ao longo da vida, até atingir o título de sênior e depois disso, e inclusive quando se constitui característica pessoal. A tendência é trabalhar com a liderança intrínseca a cada um, dentro de suas responsabilidades, relacionada à capacidade de aplicar a experiência prática e o conhecimento administrativo na obtenção de êxito e sucesso para as organizações.

Eficiência e autoridade

Liderança representa a sua capacidade de influenciar pessoas a agir, sendo que as pessoas devem seguir o líder de livre e espontânea vontade. Por isso, liderança deve ser exercida por meio da autoridade e não do poder. Esse pensamento resume a definição de liderança de James C. Hunter – um dos nomes mais citados quando o tema é liderança, autor dos livros O Monge e o Executivo e Como se Tornar um Líder Servidor, entre outras atividades. O modelo, para ele, é Jesus Cristo e a postura a ser adotada, fundamentada no bom senso, pode ser assim resumida: “Ser o chefe que você gostaria de ter, que é o mesmo que fazer a coisa certa. Devemos nos perguntar se gostaríamos de trabalhar conosco pela metade da nossa vida”.

James C. Hunter, consultor chefe da J. D. Associados

Hunter resume liderança como a “habilidade de influenciar as pessoas para trabalharem com entusiasmo, a fim de atingirem metas para o bem comum com um caráter que inspire confiança. Gestão é o que você faz, liderança é o que você é, a pessoa que você é e inspira os outros. Ser líder é fazer com que as pessoas sejam donas da missão, é ter influência, ajudar os outros a se sentirem donos do negócio”. Destaca, também, que, liderança não é gerenciamento e autoridade não é poder, pois “autoridade é a habilidade de conseguir que as pessoas realizem a sua vontade de bom gado, pela sua influência pessoal, enquanto poder é a habilidade de forçar ou obrigar outros a fazer a sua vontade, mesmo que eles não queiram por causa de sua posição de poder”.

Autoridade é o único meio de contar com “o coração, a mente e o espírito dos profissionais”, garante Hunter, pois “quando a empresa conta apenas com o funcionário apenas do pescoço para baixo – pernas, braços e mãos dos funcionários – os profissionais se tornam apáticos, perdem o interesse, a criatividade, a excelência. E isso não é competitivo no mercado globalizado. Para ser bem-sucedida, é preciso contar com os profissionais do pescoço para cima. Por que é exatamente isso o que os concorrentes estão tentando fazer. Cabe ao líder lembrar as pessoas que o que elas fazem é muito importante, ajudá-las a ver sentido no seu trabalho e a se desenvolver”.

Humildade também é palavra-chave para Hunter, que orienta o líder a ser “menos egoísta, mais honesto e comprometido. Cabe ao líder servir às pessoas lembrando-as da importância de seu trabalho, ajudando-as a ver sentido nesse trabalho e a desenvolver-se. Quanto mais servimos, mais bem-sucedidos somos. O verdadeiro amor significa espontaneamente servir o outro e ajudá-lo a tornar-se melhor. Esse é o grande teste de liderança”.

Crescimento em conjunto

Em que pese a projeção de gurus como Hunter, no Brasil há vários especialistas de renome internacional quando o tema é liderança. Entre eles está Mario Sergio Cortella – filósofo, mestre e doutor em educação, professor titular atuante há mais de trinta anos pela PUC-SP – para quem “líder é aquele que quando cresce, os outros crescem também, e somente os que sabem aproveitar as perspectivas e oportunidades farão uma liderança eficiente”.

Outro teórico brasileiro que trata do tema com proficiência é Eugenio Mussak – professor da Fundação Dom Cabral e do Ibmec São Paulo, autor e coautor de mais de 10 livros, que contabiliza, desde 1971, cerca de 20 mil aulas e mais de mil palestras para empresas, universidades e congressos, no Brasil e no Exterior. Em sua opinião, a necessidade de um líder é da própria natureza humana e leva o ser humano, ao longo da vida, a substituir os líderes, uns pelos outros, pais, professores, amigos, chefes no trabalho, ídolos esportivos, artistas, personalidades políticas.

“A liderança é observada de acordo com o olhar, que pode ser um olhar nos resultados ou nas pessoas. Com essas coordenadas, podemos formar uma matriz com quatro quadrantes”, fala Mussak ao sintetizar os modelos de liderança em quatro tipos: “Se está mais no resultado, se não está preocupado com a pessoas e seu bem-estar, esse é o líder autocrático. O que se importa mais com as pessoas e sua felicidade, é o líder democrático. E há o terceiro tipo que é o líder educador, que tem nas pessoas o resultado. Esse líder tem em si os elementos dos dois outros: é autocrático quando precisa ser e democrático quando ele pode ser. Uma das funções do líder é estimular as pessoas a se desenvolverem, conseguir retirar das pessoas o que elas têm de melhor. Essa é a essência do líder que mais desejamos, aquele que consegue adaptar o seu estilo à situação do momento, uma liderança situacional, e, por isso, circula por todos os quadrantes”.

O momento é agora

O hoje, na opinião dos especialistas, é sempre o momento que oferece as melhores condições para o desenvolvimento de líderes, assim como para rever os líderes existentes e as formas de expressão da liderança, contribuir para o surgimento de novas lideranças e para o fortalecimento e o aperfeiçoamento das já instituídas.

Além disso, “em momentos desafiadores é que vemos quem é ou não competente. Nessas horas que os bons líderes devem separar os médios dos melhores para potencializar a equipe de funcionários. Oportunidade significa saber aproveitar os ventos favoráveis e encontrar novas saídas. Significa unir as forças de quem está disposto a usá-las. A sorte segue a coragem daqueles que enfrentam seus medos e sabem aproveitar todos os momentos”, reflete Cortella.

Como momentos turbulentos propõe desafios específicos e geram clamor por mudanças, Mussak faz um alerta, chamando a atenção para o legado histórico nada positivo de mudanças muito rápidas, radicais, profundas e dolorosas, e sugere mudanças mais racionais. “O mundo mudou até pela influência da tecnologia na vida das pessoas. Não temos de sair por aí quebrando paradigmas apenas pela necessidade de quebrá-los. O caminho é substituir o modelo à medida que vamos construindo um novo”, recomenda.

Revendo conceitos

A receita do professor do Ibmec e da Fundação Dom Cabral tem três ingredientes fundamentais, ou, como ele prefere, “quando se fala em mudança, tem três qualidades importantes de quem a sugere. Primeiramente, a coragem de quem a propõe porque as pessoas vão reagir contra qualquer proposta de mudança porque estão acostumadas com o status quo. A segunda é a persistência, porque a mudança nunca acontece rapidamente; temos uma sensação de que acontece rapidamente porque olhamos o momento da virada (turn point), mas o processo é mais lento, e quando a mudança se processa é porque já havia um movimento antes. E em terceiro lugar, está a renúncia da mudança proposta, e isso é muito importante. Se não tiver coragem, nem propõe uma mudança; se não tiver persistência desiste na primeira dificuldade; e, se não tiver renúncia, as pessoas não aceitam aquela mudança. Em resumo, as pessoas que têm coragem para propor, persistência para manter seus ideais e apresentam propostas relevantes são os líderes, não importa se têm o cargo ou não”.

Mario Sergio Cortella, filósofo, mestre e doutor em educação

Coragem também é recomendação encontrada em Cortella, nas visitas à sua obra e em suas palestras e é por ele relacionada entre as qualidades a serem desenvolvidos pelo líder: “O medo é essencial coloca as pessoas para agir e pensar em soluções. Mas, é preciso lembrar que medo e pânico são coisas diferentes. Pânico é a incapacidade da ação medo o estado de alerta. Coragem não significa ausência de medo, mas capacidade e vontade de enfrentá-lo. Paciência e insatisfação positiva também são qualidades de uma boa liderança. Paciência é um princípio básico e necessário para os bons gestores. Saber a hora certa de agir é fundamental para a tomada correta de decisões. Paciência não é sinônimo de lerdeza, mas de sabedoria. A insatisfação positiva é a qualidade de sempre querer mais e melhor não a qualquer custo e não só para si, mas para todos”.

Outro aspecto a ser trabalhado pelo líder, na visão de Mussak, tem relação com a falta de vínculo das pessoas na atualidade. “O líder precisa saber como transformar uma tarefa em uma causa, conseguir mostrar para as pessoas o significado de uma pequena ação, porque ela está ligada a uma coisa maior. Estamos enfrentando alguma dificuldade com os jovens, nesse sentido, pois muitos deles estão com carências de causas e não estão encontrando uma âncora em coisas maiores do que elas mesmas”, constata.

Líder sênior

Conquistar o título de líder não significa fim da linha, pois mais do eu chegar ao topo é preciso manter-se lá. Com isso, tem início uma nova trajetória, marcada pela transição de líder setorial para líder da empresa, que, segundo especialistas no tema, é uma das etapas mais desafiadoras da carreira, e, da mesma forma que a liderança inicial foi construída, há passos e etapas a serem cumpridos para formar ou descobrir o líder sênior.

Tomás Jafet – gerente executivo da Michael Page, consultoria especializada em cargos de média e alta gerência nas mais diversas áreas, pertence ao PageGroup Brasil – lista cinco competências mais buscadas pelo mercado quando o assunto é liderança sênior: visão sistêmica, ou seja, a habilidade de enxergar o todo e as partes; influência, que nada mais é do que o poder de produzir efeito sobre pessoas e ideias; tomada de decisões difíceis, usualmente relacionadas a decidir o futuro de indivíduos e projetos; performance em finanças, que envolve diagnosticar e cuidar da saúde financeira; e senso de inovação, pois mais do que criar, é necessário saber quem está criando.

O senso de inovação – explica Jafet – “é a capacidade de perceber onde a empresa pode fazer diferente e, principalmente, como captar recursos, mobilizar pessoas e executar a cultura de mudança. O senso de inovação é o último dessa lista, pois é o passo mais complexo de ser atingido ao longo da jornada profissional, e ao mesmo, um dos mais transformadores. Talvez, hoje seja o mais importante”

Quem lidera o líder?

Essa provocação de José Luiz Tejon Megido – Mestre em Arte e Cultura pela Universidade Mackenzie , Doutor em Ciências da Educação pela UDE do Uruguai, coordenador do programa Food Management , Agribusiness & Design Innovation, pela Audencia Business School de Nantes na França , e do Instituto Europeu de Design Brasil, entre outros títulos –promove muitas reflexões que, segundo ele mesmo, não podem ficar para o futuro, pois “o futuro não será mais o resultado do presente. Velocidade é o nome do jogo que muda todas as mutações. Para irmos à 2030, por exemplo, não podemos esperar por ele. Agora o presente vira o resultado do futuro”.

José Luiz Tejon Megido, mestre em arte e cultura

E ninguém melhor que o provocador para dar a resposta. Segundo Tejon, o líder é liderado pela sua compreensão da missão. “A causa superior que determina a cada instante suas decisões e escolhas. Grandes líderes são empreendedores. Criam e transformam lixo em luxo. Onde não havia nada, conseguem ver riqueza, evolução e qualidade de vida. A liderança que nos levará ao futuro tem competências educadoras e pedagógicas. Para atender o desafio do futuro, a liderança empreendedora não é suficiente.   O mundo cresce a cerca de 4 nascimentos por segundo. Para atender a expectativa de bebês que já nascerão empoderados com as redes sociais, midiáticos e imediáticos, uma nova geração instantânea, precoce e que inunda e irriga os seus neurônios para a busca de qualidade de vida, não importa onde nasça ou onde esteja, vamos demandar lideranças cooperativistas sólidas na jornada ao futuro. Sucessores e jovens educados para a missão”.

A opção de Tejon pelo cooperativismo está na própria pujança do movimento: cerca de 3 milhões de cooperativas no mundo, que representam US$ 3 trilhões de resultados econômicos, sendo que no Brasil estão 1 milhão de cooperados e, apenas o Ramo Agro, representa 50% de tudo o que é produzido, com receita de R$ 180 bilhões e 13,5% de todo PIB do agronegócio.

Fundamenta-se, ainda, na sua convicção de que “as lideranças com firme filosofia cooperativista são suportadas e suportam suas organizações através da educação persistente e permanente, rigor administrativo financeiro e uma legitima democracia. Esses líderes também têm valores como responsabilidade social corporativa, sustentabilidade, lucros de longo prazo e longevidade no posto, métricas adotadas, em 2016, pela Harvard, para se chegar à lista dos 1000 maiores CEOs do planeta”.

“Quem constrói um caráter, constrói o destino”, afirma Tejon, resumindo seu entendimento de que a liderança ainda terá “como força motora e desafiadora a luta pelas percepções humanas. Uma liderança empreendedora e cooperativista não existe para fazer o que os liderados desejam, mas, sim, para juntos fazerem o que precisa ser feito. E será mandatório para liderar, obter autorização moral e interpretar a ética. Isso será o fator sine qua non nas decisões entre poder fazer e dever fazer”.


Cooperativismo é liderança em rede

No cooperativismo, um dos estimuladores do desenvolvimento de lideranças é Roberto Rodrigues – ex-ministro da agricultura, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, embaixador Especial da FAO para as Cooperativas e presidente da Academia Nacional de Agricultura (SNA), entre outras funções. Para ele, no mundo atual, “falta quem dê rumos à humanidade que vai assim, sob a égide da economia globalizada, avançando erraticamente através dos anos. Na ausência de líderes globais individuais, seriam as redes sociais uma alternativa para liderança nova, afinal, talvez não haja mais espaço para este tipo de liderança individual carismática e dominante”.

Roberto Rodrigues, coordenador do Centro de Agronegócios da FGV

Rodrigues agrega a isso “a dramática necessidade de defender a democracia, em seu conceito mais amplo, pois esta talvez esteja em risco, uma vez que a economia globalizada e o protecionismo dos países ricos levam os governos nacionais a perderem a condição de resolver todos os problemas de seus cidadãos”. Para ele, o cooperativismo é um celeiro de líderes, reunidos em uma rede democrática calcada em valores que garantem a perenidade da democracia – inclusive a econômica – preservados os direitos individuais, a transparência, a honestidade, a solidariedade entre as pessoas e os povos, a igualdade entre todos, a confiança e compromisso com o bem-estar coletivo.

A experiência mundialmente reconhecida no movimento cooperativista leva Roberto Rodrigues a acenar com a possibilidade de as cooperativas, enquanto empresas baseadas em valores universais, serem “um caminho para essa nova forma de democracia. Afinal, o mundo tem mais de 1 bilhão de cooperados. Com suas famílias, somam bem mais da metade da população do globo, pessoas unidas pelos mesmos princípios e crenças. E sua atuação na melhoria da gestão e da governança com programas liderados pelo Sistema OCB, como a auto-gestão e o Cooperjovem, já estão formando novos líderes com a visão do compartilhamento do comando. Pode ser um excelente começo”.

 

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