Momento é relevante para análise e estimulo a novo investimento, recomenda Pascalicchio

O que esperar da economia em 2018. Por mais que em 2017 a economia tenha descolado-se da política, e de que a atividade empresarial mostra que para este ano essa deverá ser a postura adotada, 2018 será marcado por muitos eventos que interferem na produtividade e, consequentemente nos resultados. Além de inúmeros feriados passíveis de gerar finais de semana prolongados, dois momentos são significativos para os brasileiros: Copa do Mundo e Eleições para Presidência da República e cargos do executivo estadual. Isso sem falar em julgamentos da Lava-Jato, votações de temas polêmicos no Congresso Nacional, etc.

Para comentar o que aconteceu em 2017, que, apesar de todo o pessimismo que marcara o início do período, superou positivamente as expectativas, e falar sobre perspectivas, MundoCoop ouviu, com exclusividade, Agostinho Pascalicchio, professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Confira a íntegra!

Doutor em Ciências pelo Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo. Mestre em Teoria Econômica pela University of Illinois at Urbana-Champaingn/USA. Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade de São Paulo. Professor universitário nas áreas de economia, economia da energia e engenharia econômica/finanças, Pascalicchio agrega mais de 28 anos de experiência como executivo nas áreas de finanças, projetos de infraestrutura, projetos sustentáveis e em macroeconomia nacional e internacional; ocupou a posição de liderança na avaliação e assessoria financeira de diversos projetos; tem experiência em linhas financeiras, abertura de capital e no mercado de comercialização de energia elétrica. Além disso, nas corporações multinacionais do setor elétrico, estabeleceu critérios financeiros que são adotados atualmente; possui experiência na avaliação de projetos estratégicos para o setor elétrico como o intelligrid ou smart grid; é responsável pela avaliação financeira de projetos na Comunidade Europeia e coautor do livro “Gestão de Finanças e Investimentos – Guia Prático” (2012-2013).

Que balanço faz da economia no ano de 2017: foi melhor ou pior do que previa? Por quê?

No mesmo período de 2017, os economistas do mercado financeiro estimavam um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em uma taxa bem reduzida, entre zero e 0,5%. Hoje, o PIB de 2017 situa-se em torno de 1,0%. A projeção de um ano atrás, além de mostrar uma volatilidade não identificada por estes economistas no crescimento da economia brasileira, representava o reflexo da ausência de expectativas positivas para a economia brasileira na época. Já existiam naquele período informações sobre as melhorias na renda da população; já tínhamos informações consistentes sobre a excelente safra do período  de 2016/2017, e do efeito dominó que esta safra causaria sobre a renda das cidades que possuem uma dominação agrícola em seus negócios; também dispúnhamos de informações sobre o valor e datas das liberações dos recursos do FGTS e de outros encargos sociais para trabalhadores, com efeitos favoráveis sobre as grandes metrópoles do País; as expectativas sobre a queda de inflação, dos juros básicos e dos ajustes essenciais a ser tomado por parte do governo já eram consistentes. De alguma forma, estas variáveis, medidas e anúncios foram fortemente ignorados nas projeções. Talvez porque o início do ano passado apresentou de fato o domínio do período caracterizado pelas “expectativas pessimistas” para a economia brasileira. Entretanto, na realidade, o PIB de 2017 cresceu o dobro de qualquer projeção realizada pelo mercado. Quanto a nós, estávamos mais otimistas por estarmos atuando em ambiente muito mais isento, e já projetávamos um PIB de 1% para o ano. Cabe destacar, ainda, que outro evento favorável para a economia do País foi o efeito causado pela queda das taxas de juros sobre o déficit nominal do governo. Este valor foi de 9% em 2016.  A dívida bruta total do governo, entretanto, deverá continuar com uma trajetória de alta. A menor taxa de juros sempre traz efeitos sobre as decisões de investir dos agentes econômicos. Para o setor externo, mesmo com uma política cambial adversa, as exportações apresentaram um excelente resultado. Receberam a colaboração das exportações das commodities, tanto agrícola, quanto da extrativa mineral e de automóveis. Os investimentos em infraestrutura, de maneira geral, poderiam ser muito melhores. Uma exceção foi representada pelas intenções e investimentos contratados pelo setor elétrico. Muito ainda deve ser feito neste segmento. Porém, importantes ajustes estão em andamento. Em suma, apesar do ano de 2017 não ter tido um crescimento significativo, foi – quando comparado às projeções iniciais de mind makers do mercado – um ano muito melhor.

Quais os principais fatos que lista no cenário de 2018?

Temos alguns marcos que convém assinalar quando comparado a 2017. O ano de 2018 será provavelmente melhor do que o do ano passado. É um ano que será marcado por diversos momentos: Reforma da Previdência, aprovação das contas públicas, comportamento da dívida pública bruta, taxas de juros básicas baixas, oscilações no mercado de renda variável, força das lideranças no Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), contas dos estados sem consolidação e causando crises e fortes desequilíbrios durante o primeiro semestre do ano e aumento do protagonismo da sociedade brasileira durante as eleições.

O que esperar da economia em 2018?

O PIB provavelmente apresentará crescimento entre 3,5% e 4% e receberá forte contribuição do consumo das famílias, que beneficiarão as categorias industriais de bens de consumo não-durável (como alimentos, medicamentos, vestuário, calçados e celulares) e durável (como eletrodomésticos e automóveis). As baixas taxas de juros básicas oferecidas pelos títulos do governo poderão estimular expansão de crédito adicional para as famílias. Os investimentos deverão ser orientados para acessórios e componentes destinados às máquinas de produção de bens de consumo e de algumas peças de reposição para o setor de bens de capital. As exportações manterão a boa performance já registrada em 2017 e sobre os mesmos setores. A economia internacional em crescimento também deverá colaborar para manter esta excelente performance. A taxa de desemprego deverá continuar em queda, com significativa absorção de trabalhadores no segmento urbano da sociedade.  Novamente o setor agrícola deverá seguir em destaque, com aumentos de produtividade apesar da redução na área plantada. No setor terciário, o destaque deverá acontecer com a melhoria da atividade comercial, com novos reflexos positivos sobre a renda urbana. O setor de construção civil deverá ter um comportamento segmentado: o setor de construção civil voltado para empreendimentos comerciais ainda não apresentará um dinamismo significativo; mas o de moradias populares e de classe média poderá apresentar uma reativação a partir do último trimestre do ano. Expectativa importante cabe à evolução da poupança agregada do País. Ela será determinante para os projetos de longo prazo do país, principalmente os destinados às empresas de bens de capital – produção de bens que servem para a produção de outros bens –, de bens intermediários, as empresas que produzem bens que uma outra empresa adquire para produzir os seus bens e nos investimentos em infraestrutura, principalmente de médio e longo prazo.

2018 será um ano de eleições. Como esse fato influenciará a economia e quais os pontos positivos?

Diversos ajustes e providências governamentais deverão ser anunciadas durante o primeiro semestre do ano. Algumas regras federais possivelmente estarão gerando ajustes significativos sobre as contas públicas. As empresas estatais e os órgãos de financiamento do governo deverão anunciar medidas de impacto com novas estratégias que garantam imagens positivas e organizem os investimentos industriais de curto e médio prazo no Brasil. Algumas medidas podem ser anunciadas de forma a melhorar as condições financeiras de pessoas e das empresas. Determinadas cidades poderão ser beneficiadas com as conclusões de importantes obras que melhorem a mobilidade urbana de uma área ou região. O resultado final, apesar das limitações existentes – como a de responsabilidade fiscal e de outras regras estabelecidas inclusive durante 2017 sobre a administração pública, – podem ser favoráveis para a economia. Existe muito que pode ser anunciado e feito.

Que cuidados as empresas – e cooperativas – devem tomar em 2018?

Os tradicionais fatores de análise de risco sempre devem ser levados em consideração. Sempre devem ser analisados os fatores de redução ou de eliminação de riscos em diversas operações. A diferença, entretanto, é que no início de um novo ciclo econômico de crescimento, ocorrem as novas oportunidades de negócios. Surgem melhores oportunidades e de menor risco quando comparadas com as conhecidas até então.  São oportunidades relevantes, nas quais a agilidade das empresas e das cooperativas são elementos determinantes. Neste momento, é relevante analisar e estimular novo investimento na economia, aquele que resulta da adição de novas máquinas, equipamentos, construções, e de outros bens e produtos à produção do País. As garantias para operações identificadas desta forma costumam ter baixos riscos.  Convém observar que não é orientar investimentos para acessórios e peças de reposição. Trata-se de desenvolver a inovação, estimular a diversificação; incluir um novo perfil de trabalhador à produção. Existem setores claramente em transição, nos quais os custos para as empresas – e cooperados – são ainda altos: energia elétrica, gás, combustíveis diversos, água, construção civil, logística, mecanismos de controle e supervisão, comunicação, plantas e layouts para a indústria 4.0 ou da Quarta Revolução Industrial e que necessita de novas especialidades, sensores, inteligência, integração com a internet das coisas (IoT), etc. As empresas podem desejar reduzir estes custos e adequar-se ao novo mercado. Para tornarem-se competitivas e protagonistas internacionalizados, vão precisar de projetos nestas áreas, que podem constituir novas oportunidades de financiamento, crédito e de negócios.

Em que patamar deve ficar a inflação em 2018? Explique.

A inflação para 2018 deverá ficar entre 4% e 4,5%.  De maneira básica, a inflação pode ser causada por aspectos como excesso de demanda ou de procura por bens e que é determinado principalmente pelo alto consumo das famílias. Também pode ser causada por elevação nos custos dos insumos de produção industrial. Um mecanismo conhecido como inércia inflacionária – resultante do comportamento da inflação passada, gerando mecanismo impeditivo da redução nos níveis de preços – mantém, também, a inflação persistentemente elevada. E, ainda, entre os principais fatores de pressão inflacionária, existe o mecanismo de indexação, no qual a inflação é alimentada por processos como os causados pelos reajustes dos contratos ou de salários que provocam novas altas nos preços futuros. Sem dúvida, pode haver combinação destes fatores.  Nos últimos anos, estes processos tiveram seus mecanismos desmantelados ou foram muito enfraquecidos. Desta forma, a alta prevista da inflação em 2018, provavelmente, passará a ser a de retomada do consumo das famílias – inflação de demanda –, gerando hiato inflacionário que provoca a variação nos preços dentro do intervalo estimado.

Em que áreas devem acontecer os principais investimentos? Por quê?

Em 2018, os investimentos deverão ser orientados para acessórios e componentes destinados às máquinas de produção de bens de consumo e de peças de reposição para o setor de bens de capital. O aumento no consumo de bens de consumo não-duráveis e dos duráveis deverão determinar a retomada das indústrias atuantes nestas áreas. Diversos bens de consumo estarão sensíveis à concorrência dos países asiáticos, porém, a produtividade das empresas nacionais pode superar os mecanismos aduaneiros adotados no Brasil e do ativo eleitoral deste ano. Os investimentos em bens de capital e bens intermediários deverão ser analisados com diversos outros critérios, como o tempo exigido para viabilizar financeiramente estes negócios. Algumas análises e estudos certamente contarão com apoio de instituições como o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social].  A nova TLP da instituição poderá trazer os esperados benefícios de longo prazo neste setor. Estes investimentos é que devem prioritariamente ser aumentados. Os investimentos nestas áreas também serão determinantes para planejar e adequar os projetos de infraestrutura. Os investimentos nestas áreas garantirão o crescimento sustentável da economia. Sem o aumento da formação bruta do capital fixo no setor de bens de capital ou no de bens intermediários – ou seja, nos investimentos na produção de bens que servem para a produção de outros, e nos produtos que uma empresa adquire para produzir os seus bens –, fica difícil considerar crescimento acima de 4% ao ano no longo prazo, o que é necessário para atender as necessidades futuras do próprio governo dentro das reformas que estão em andamento e das características e necessidades demográficas da população brasileira.

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