Um apoio ao recomeço

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Voltar ao mercado de trabalho costuma ser um grande desafio para mulheres que se afastam de sua atividade profissional por um período mais longo, a exemplo da licença-maternidade. Iniciativas do setor privado começam a mostrar a possibilidade de uma nova perspectiva

 

Édifícil encontrar pesquisas sobre mercado de trabalho e atividades profissionais comparando gêneros que não mostrem as mulheres em alguma desvantagem. Em muitos casos, essa diferença é uma consequência da maternidade. Para conciliar o emprego com a responsabilidade de cuidar dos filhos, por exemplo, acabam buscando ocupações com uma jornada reduzida. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) mostram que 28,2% das mulheres têm empregos de até 30 horas semanais, enquanto que 14,1% dos homens estão nessa condição.

Até por uma questão biológica, a única maneira de colocar as mulheres em condição de igualdade para concorrer com os homens na escalada da realização profissional é ajustando o sistema – as leis e o ambiente de trabalho. Mais do que isso, trazer equilíbrio a este cenário é essencial para conseguirem se manter no mercado. Para se ter ideia, uma pesquisa realizada pela FGV EPGE (Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas) com 274.455 mulheres, com idade entre 25 e 35 anos, mostrou que metade delas estava sem trabalho após 12 meses do afastamento pela maternidade. O estudo, baseado em dados do Ministério do Trabalho, foi feito com profissionais que tiraram licença-maternidade entre os anos de 2009 e 2012.

Quando o período de garantia do emprego termina, após o quinto mês do início da licença, os riscos de perder o posto de trabalho vão aumentando conforme o tempo passa. De acordo com o levantamento da FGV, 5% das mulheres deixam o emprego assim que passam dessa etapa. No sexto mês, já são 15% desempregadas. Depois dos 12 meses o índice chega a 48%. Vale dizer que nem sempre essa saída é definida pelo empregador, pois em muitos casos as mulheres deixam o emprego por não terem com quem deixar os filhos pequenos.

O nível de escolaridade também pesa na definição dos afastamentos. Dados da pesquisa mostraram que, passados os 12 meses do início da licença-maternidade, as mulheres com escolaridade acima do ensino médio representaram 35% das que deixaram o emprego. O grupo que tinha até o ensino médio completo era 49%, as que tinham até o ensino fundamental completo eram 53% e as que ainda não haviam completado nem o fundamental, respondiam por 51%.

Nova oportunidade

As diversas manifestações ao redor do mundo cobrando um ambiente igualitário, tanto em relação às condições e oportunidades de trabalho quanto à remuneração, têm levado várias empresas a promoverem significativas mudanças e adequações em seus procedimentos. E a criarem iniciativas condizentes com um mercado de trabalho mais justo. É o caso da PepsiCo, que no ano passado lançou o programa global “Ready to Return”, destinado a profissionais experientes que interromperam a carreira por um período maior que dois anos para se dedicar aos filhos, acompanhar os cônjuges em mudanças de cidade ou país, ou em decorrência de problemas de saúde e até mesmo da realização de projetos pessoais, inclusive a pausa para um período sabático.

As candidatas selecionadas para o programa permanecem dez semanas na companhia, com direito ao salário e aos benefícios do cargo ocupado. Durante esse período, trabalham em projetos relacionados a suas áreas de conhecimento e experiência, com garantia a mentoria, treinamentos e imersões para atualização e capacitação. Nos Estados Unidos, onde o programa começou, participaram oito mulheres, das quais sete tiveram o contrato estendido após o término das 10 semanas e, por fim, três acabaram sendo efetivadas.

O Brasil é o segundo país em que a  PepsiCo lança o “Ready to Return”, e as oportunidades chamaram a atenção: foram mais de duas mil inscrições. “A seleção levou em conta a experiência e a identificação das candidatas com a cultura da empresa”, afirma Rafaela Pogrebinschi, gerente de Talent Aquisition da PepsiCo Brasil. “Valorizamos o que torna cada indivíduo único, acreditamos que é essa cultura que nos torna mais fortes, diversos e criativos”, acrescenta a executiva. O processo, na prática, teve início em agosto, e as participantes já estão trabalhando na sede da companhia, em São Paulo (SP), em cargos de liderança nas áreas de finanças, marketing, recursos humanos e vendas.

Rafaela Pogrebinschi, da PepsiCo Brasil: valorizamos o que torna cada indivíduo único, essa cultura nos torna mais fortes, diversos e criativos

Rafaela comenta que esse programa é fruto do forte compromisso que a PepsiCo tem com o crescimento da participação de mulheres no mercado de trabalho. “A companhia realiza esforços para incrementar o número de líderes mulheres por meio de iniciativas de recrutamento e desenvolvimento ao redor do mundo”, afirma. É por isso que as participantes passam por treinamentos e imersões para atualização e capacitação, assim fortalecem o desempenho profissional e sua confiança. “Essa é uma oportunidade de reciclagem que vai colaborar para reinserir as candidatas no mercado de trabalho, seja na PepsiCo ou em outra companhia.”

Para que as candidatas sejam bem recebidas e tenham condições de aproveitar o máximo de seu potencial, há uma preparação dos líderes e das equipes com quem vão trabalhar. “As participantes terão uma análise sobre seu currículo e sua experiência e serão apoiadas por gestores, mentores e parceiros a se reinserirem no ambiente corporativo”, ressalta Rafaela. O objetivo é que a energia e os novos olhares trazidos pelas participantes causem uma sinergia positiva para essa relação, gerando resultados favoráveis para todos.

Heloisa Menezes, do Sebrae: as mulheres têm a capacidade de transformar

Essa receptividade é fundamental, pois essas mulheres terão a chance de participar de projetos de grande relevância e impacto para os resultados da empresa. A PepsiCo já vem trabalhando há tempos essa adequação do ambiente profissional em suas unidades ao redor do mundo, o que abre oportunidades de forma igualitária no que diz respeito aos gêneros e a outros fatores relacionados à diversidade. “Esse é um desafio que a empresa abraçou há mais de dez anos, com o lançamento de sua estratégia global de negócios chamada Performance com Propósito (PwP)”, diz Rafaela, que continua: “Entre as metas de diversidade da PepsiCo no mundo todo está promover, cada vez mais, uma agenda de liderança feminina dentro e fora da companhia”.

Segundo a gerente, a PepsiCo Brasil já conta com 43% de mulheres em sua liderança sênior, número que sobe para 46% nas posições de liderança júnior. “Nossa missão no Brasil é ter 50% de representação feminina em todos os níveis e áreas até 2025”, afirma. Esse movimento também visa a apoiar o avanço das mulheres e estimular seu desenvolvimento social e econômico em comunidades ao redor do mundo. Tanto que, em parceria com a PepsiCo Foundation, pretende-se investir, também até 2025, US$ 100 milhões em iniciativas para beneficiar 12,5 milhões de mulheres e meninas.

Outro projeto abrangente da empresa que começou pelo Brasil é o “Mulheres com Propósito”, um programa baseado em oportunidades de educação, empreendedorismo e emprego. Com investimentos de US$ 1,5 milhão, a PepsiCo pretende apoiar cerca de 10 mil mulheres na América Latina. No Brasil, serão beneficiadas duas mil, com o diferencial de que 50% das vagas serão destinadas a mulheres. “Aqui representamos a maioria da população e lideramos quase 40% das famílias. Esta iniciativa tem o potencial de alavancar esses núcleos em todo o País e melhorar a qualidade de vida de milhares de pessoas”, comenta Rafaela.

Apoio ao empreendedorismo

Outras ações de apoio ao desenvolvimento profissional das mulheres estão mais diretamente relacionadas com o empreendedorismo. É o caso do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), que traz a recolocação das pessoas no mercado de trabalho em todas suas ações. Recentemente, a instituição oficializou sua adesão aos Princípios de Empoderamento das Mulheres da ONU (Organização das Nações Unidas).

O Sebrae passou a integrar um grupo com mais de 170 entidades públicas e empresas que incorporam em seus negócios valores e práticas que visam à equidade de gênero e à consolidação do papel das mulheres na sociedade e na economia. “Essa iniciativa ajuda a deixar mais clara nossa proposta, que é o empreendedorismo que transforma. E as mulheres têm a capacidade de transformar”, afirma Heloisa Menezes, presidente da instituição. Segundo o Sebrae, as mulheres representam 24 milhões de empreendedoras em todo Brasil, um pouco menos do que os homens, que são 25,4 milhões. Mas quando se fala em negócios criados de três anos e meio para cá, essa balança se inverte. Elas somam 14,2 milhões, enquanto eles são 13,3 milhões. No fator remuneração média, a comparação segue desfavorável às empreendedoras.

 

 

 

One comment on Um apoio ao recomeço

  1. paulo sergio disse:

    Gostei. Estou lendo esse artigo por causa da minha filha que acabou de largar o emprego em Brasília, DF, para tentar a vida em São Paulo, que ela ama, por não ter sido valorizada.
    Ela é uma excelente profissional na área de educação, trabalhando como assessora no comitê de ética de uma faculdade muito conceituada em Brasília, CEUB.
    Porem como tem dois filhos pra criar teve dificuldades para se graduar e com isso fica desprestigiada financeiramente devido as exigências atuais, como se o ‘canudo de papel’ valesse mais do que a experiência.
    Ainda bem que isso está mudando no mundo e com a visão da ONU a favor do empoderamento das mulheres pode ser que em breve as oportunidades de emprego cresçam para elas.
    É só dar uma chance que elas dão conta.

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